E se, para manter o controlo, tiveres de abdicar dele? CategoriesBlog · Coaching · Psicologia

E se, para manter o controlo, tiveres de abdicar dele?

Há um truque de ilusionismo bem conhecido que ilustra para mim, na perfeição o conceito de controlo. Já deves ter visto alguém encher um copo de água, colocar uma carta no topo e, enquanto a segura, virar o copo ao contrário. Para tua surpresa, quando a pessoa larga a carta, esta mantém-se presa ao copo e a água mantém-se dentro do mesmo. Tudo se mantém em controlo desde que a pessoa continue a segurar no copo e a carta não seja tocada.

É bem provável que tu, à semelhança de muitas pessoas, acredites que tens um grau elevado de controlo sobre a tua vida. Que é aquilo que fazes que define o teu percurso. Que o teu destino é escolhido por ti. Que a carta mantem a água dentro do copo porque tu estás a segurar nele.

Paradoxalmente é natural que também concordes que o grau de controlo que sentes ter é muito menor do que aquele que, na realidade, tens. Que faças o que fizeres, haverá sempre algo que não conseguirás influenciar na direção que queres. Que a qualquer momento a carta, com uma rajada de vento, se mova e a água caia, fazendo-te perder todo o controlo da situação.

Por estranho que pareça, ambas a premissas são verdadeiras. Ambas se complementam e dão uma noção mais “real” do que é ter controlo e da fragilidade na qual ele existe. Sim, isso mesmo. O controlo, essa sensação tão poderosa e sedutora de conseguir influenciar, algo ou alguém, na direção que queres é frágil e talvez seja por isso que lutas muito por mantê-lo. Mas afinal, o que é isto do controlo? E como podes mantê-lo quando é mais necessário?

O Controlo é uma percepção assente numa crença!

Voltando ao truque de magia, é natural que acredites que o copo, a água e o papel, estão sob o teu controlo porque tu estás a segurar no copo. No momento em que o largares, em que deixares de exercer esse controlo, tudo se desmorona. Na realidade esse controlo mantém-se graças a um conjunto de fenómenos da física que exercem a sua influência independentemente da tua vontade. Na realidade tu só tens, ou não, controlo porque escolhes acreditar nisso!

O controlo é uma perceção assente numa crença. Tu vês o controlo ou a falta dele quando acreditas ou não que o tens. Por norma, todas as pessoas querem ter controlo sobre alguma coisa nas suas vidas. É uma perceção que transmite tranquilidade, equilíbrio e segurança. Que permite que te sintas confortável ao ponto de avançares com todas as decisões e ações que concretizas no teu dia. Porque és tu que as controlas, porque tu estás no comando e o resultado vai ser aquele que tu queres.

Mas tu sabes que nem sempre é assim. O que acontece quando, depois de muito trabalhar num projeto ele falha? Quando depois de muitas entrevistas para as quais te preparaste cuidadamente, ninguém te aceita? Quando promoves alterações benéficas à tua equipa e ela diminui a performance? Quando a tua vida vai, teimosamente, na direção contrária àquela que queres? O controlo continua a ser teu, mas já não te faz sentir bem, certo?

De uma outra perspectiva, pode ser apetecível acreditar que não tens controlo sobre algumas coisas que te acontecem. Afinal aquele projeto não era só teu, certo? Concorreste àquela posição com muitas pessoas e a decisão final não era tua, correto? A tua equipa tem elementos com vontade própria e eles são livres de fazer o que quiserem, concordas? Continuas a viver uma vida abaixo das tuas expectativas, não porque tu queiras, mas porque o contexto do teu país não o permite, certo?

Visto assim, não ter controlo até parece uma coisa boa. Só que não é. Quando tens a percepção de que algo está fora do teu controlo, a frustração, a ansiedade e a impotência emergem. Como seria não poder fazer nada quando alguém que te é querido descobre que tem uma doença grave? O que sentirias se descobrisses que a empresa onde trabalhas vai fechar amanhã e nada podes fazer? Como seria continuar ver os dias a passar, a trabalhar no teu projeto de vida ideal sem ver resultados?

Então em que ficamos? Queres ter controlo ou preferes abdicar dele?

Ter ou não ter, eis a questão!

Lembraste do truque de magia de que te falei? Bem, há outro pormenor que é importante reter. Se te lembrares, uma das condições para manter a situação sob controlo é continuar a segurar o copo. Na verdade é provável que seja o único elemento que esteja, realmente, sob o teu controlo. É natural que com o passar do tempo comecem a surgir-te algumas dores na mão, no braço ou no ombro. Por consequência a dificuldade em continuar a segurar o copo vai aumentando até um ponto em que, inevitavelmente terás que tomar a decisão de manter o controlo ou abdicar dele.

Sabes que continuares a segurar o copo, as dores serão tão intensas que corres o risco de causar danos à tua mão e braço. Por outro lado, sabes que se deixares cair o copo, além de todo o controlo de dissipar, este se vai partir e se for o último copo que existe não haverá outro. É aqui que entras, verdadeiramente num dilema. Manter ou abdicar do controlo vai trazer-te consequências que queres evitar, então, o que vais fazer?

Com este dilema vais descobrir duas outras características importantes do controlo. A primeira é que o controlo, quando existe, é sempre temporário! Isto porque, como viste no exemplo, exige energia constante para ser mantido. Quando a energia se esgota o controlo acaba e aí as consequências são imprevisíveis. Sabes aquela relação que acaba ao final de muitos anos? O jovem que parecia ter a vida perfeita e se suicida? O melhor profissional da organização que se despede sem motivo aparente? Estes são apenas alguns exemplos do que acontece quando algumas pessoas chegam ao limite e deixam de estar no controlo das suas vidas, simplesmente porque estiveram tempo demais a controlar algo que só as estava a prejudicar.

A segunda característica do controlo é que é uma escolha! Tu podes decidir manter o controlo e continuar a investir energia em favor de algo que acreditas ser bom para ti, mesmo que não o seja. Podes, igualmente, abdicar dele, libertar-te dessa pressão e avançar noutro sentido. Se no exemplo do copo, ao invés de largar o copo, decidires virá-lo para a sua posição natural e colocá-lo numa mesa a situação mantém-se sob controlo. Um nível de controlo diferente, no qual graças a uma escolha tua, a situação que parecia ter apenas um resultado, o negativo, foi invertida, tal como o copo, e passou a ser positiva.

Parece que a maior sensação de controlo genuíno nasce, precisamente, quando abdicas deles e, no entanto, o mantens. É nesse momento que compreendes que não interessa quanto controlo tens mas sim onde, como e quando o usas!

O quê, como e quando?

Quando penso nas pessoas com quem me cruzo, na vida ou numa sessão de coaching, a impressão com que fico quando falo em controlo é o que o importante para elas é ter ou não ter. Quantas vezes vejo pessoas preocupadas com algo que está completamente fora da esfera de controlo delas? Quantas vezes estou, frente a frente, com pessoas acreditam nada poder fazer para controlar uma área da sua vida?

Na realidade, como acabas de compreender, o que interessa não é ter controlo ou abdicar dele. Isso é só o princípio de uma decisão muito maior e que é uma lição enorme para o teu desenvolvimento pessoal. O que realmente interessa é responder a três questões quando estás numa posição em que tens que decidir se vais assumir o controlo ou não:

– O que vou controlar?

Saber escolher entre as situações nas quais queres investir a tua energia e aquelas das quais te preferes alienar, num sentido positivo, é fundamental para o teu bem-estar e para a tua vida ser como tu queres. Em qualquer um dos casos está consciente de um ponto fundamental. A única coisa sobre a qual algum dia terás maior controlo é o teu comportamento. Desde os teus pensamentos, atitudes e ações. É aí que importa estar o teu foco. Por isso, quando escolheres o que vais controlar, escolhe controlar o teu comportamento.

– Como vou exercer este controlo?

As tuas ações, o teu comportamento é o que te permite interagir com o mundo à tua volta. É o que te permite viver a tua vida. Sabes agora que tentar controlar tudo é impossível por isso o caminho não é por aí. Quando pensas na forma como estás a exercer o teu controlo é fundamental respeitares os teus valores e os dos outros. Quando decidires como vais exercer o teu controlo, seja em relação a ti, seja em relação a outras pessoas, procura criar sempre um impacto positivo. Dessa forma, seja qual for o resultado, as emoções predominantes serão sempre positivas.

– Quando é o momento para o fazer?

O melhor momento é sempre este momento. Esta é uma frase “feita” que diz a essência da realidade subjetiva e individual que vivemos. O mais importante, quando falas do momento certo para exercer ou abdicar do teu controlo, é teres bem claro para ti qual é a tua intenção, que propósito é que ela serve e como é que vai influenciar as pessoas à tua volta. Desde que estes três elementos estejam claros é sempre o momento.

Parece-me agora que percebeste o essencial para recuperar ou abdicar do controlo da tua vida. Sobretudo para saber o que fazer com ele e para viver uma experiência única. A questão que fica por responder é, e agora, o que vais fazer?

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