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A que vida te queres habituar?

Há lições de vida tão óbvias que pouca atenção lhes prestamos, acreditando, na nossa ignorância, já as conhecer perfeitamente. O mais curioso é elas serem-nos presenteadas pelas pessoas menos óbvias. Quando procuramos estas grandes lições tendemos a olhar para as grandes referencias do nosso mundo, os gurus, os intelectuais, os influenciadores e os inspiradores. Aqueles que parecem estar num nível de sabedoria inalcançável à pessoa comum.

É por isso que, quando estas lições nos chegam por alguém que vemos com grande admiração, apesar de, para o mundo, não se enquadrar nesse lote, a surpresa e o impacto das palavras é muito maior. Essa pessoa foi a minha avó, uma pessoa que passou por uma perda muito grande há um par de anos e que desde aí encontrou em si muito mais força, resiliência e optimismo do que acreditava ter. 

Uma lição para a vida

Num destes dias, a meio de uma conversa casual lá em casa, ela partilhou comigo uma lição. Enquanto falávamos sobre como se estava a aguentar e como estavam as ser os seus dias, ela confessou-me algo. “Sabes, filho, nós habituamo-nos a tudo”. Aquelas palavras foram ditas pela minha avó de uma forma tão natural como só a sabedoria acumulada do tempo o permite fazer.

Naquele momento, mesmo tendo ouvido muitas vezes esta pequena grande lição, pareceu-me que, pela primeira vez, a entendi na sua pura e genuína essência. Olhando para o contexto em que vivíamos e contrastando-o com aquele que o mundo hoje atravessa percebi que ela estava absolutamente certa. Nós, de facto, habituamo-nos a tudo. A tudo mesmo, ao bom…e ao mau.  

O futuro imprevisto

À um par de meses eu, tu e praticamente todas as pessoas no mundo, acreditávamos que as ameaças eram perfeitamente previsíveis. As grandes calamidades que poderiam afligir a humanidade no futuro tinham formas definidas. Uma guerra económica desenhava-se a traços largos no horizonte. A possibilidade das máquinas ocuparem o topo da pirâmide deixava muitas mentes inquietas. Uma crescente divisão entre classes e países ameaçava criar fracturas em relações que, outrora, se desejavam para a eternidade.

O que ninguém imaginou foi o impacto que um zombie com 125 nanometros iria ter no mundo e na nossa vida. Um ser que, sem olhar a género, raça, sexualidade, nível socioeconómico ou estatuto social,  virou a nossa vida ao contrário. Para o pior e para o melhor. 

Um normal…desejável?

Quando pensas na tua vida à algumas semanas atrás é natural que sintas o desejo de regressar a ela. À vida “normal” que te habituaste a viver. É provável que o teu dia começasse com um rápido pequeno-almoço enquanto vias os emails por responder, te actualizavas nas redes sociais ou desesperavas a tentar preparar os teus filhos para a escola. Seguia-se uma viagem até ao trabalho onde passavas mais de um terço do teu dia a perseguir, como acontece na maioria dos casos, o sonho, ou ambições ambíguas, de outra pessoa.

Com o sol a pôr-se regressavas a casa, já depois de passar no ginásio, na escola e/ou no supermercado. Por fim, já com os filhos, companheiro(a), cão ou gato a dormir, aproveitavas os últimos minutos do teu dia a ver uma série ou a finalizar aquele trabalho super importante do qual dependia a tua vida. Ao deitares a cabeça na almofada só pensavas no dia seguinte sem, por um segundo sequer, te questionares sobre o sentido da tua vida. Olhando bem agora, será que é a esse “normal” que queres voltar?…  

O elefante invisível

Se esta pergunta, seja qual for a tua resposta, faz sentido para ti então tens companhia. O ser humano tem uma necessidade inata de manter a “coerência interna”. Isto significa que a forma como vês o mundo e interages com ele tenderá a estar sempre de acordo com aquilo que acreditas ser a realidade. Tu tens uma necessidade vital de ver o mundo, não como ele é, mas como tu queres que ele seja. E é por isso que vês muito pouco do que na realidade se passa, em cada momento, contigo.

É como teres um elefante cor-de-rosa à tua frente e, por não quereres acreditar que essa é a realidade, ele, magicamente e aos teus olhos, desaparece. Mas não te enganes, ele continua lá, bem na tua frente com tudo o que de bom e mau traz à tua vida. Felizmente estás hoje a viver uma crise sem precedentes que te está a mostrar a ti, a mim e a todas as pessoas, que a tua realidade não era tão boa, nem tão má como acreditavas. Era a realidade a que te te habituaste. 

Acorda!

A mudança chegou de forma intensa, dolorosa e espectacular. Não vou estar a romantizar esta crise e dizer que pode ser a melhor coisa que te aconteceu na vida. Basta imaginares-te no lugar de alguém que ficou sem trabalho, que olha para a mesa dos filhos de mãos vazias e lágrimas nos olhos, ou de alguém que perdeu um familiar ou amizade de longa data sem direito a uma última despedida, e percebes o meu ponto. Este momento vai marcar a tua vida, se para melhor ou para pior serás tu a definir. Acredita quando te digo que a única coisa que este momento pode “fazer por ti”, se tu te permitires, é despertar-te da dormência em que vivias.  

Um despertar que agora começa e do qual podes, se quiseres, tirar valiosas lições. De um dia para o outro, quem sabe pela primeira vez, foi o teu trabalho que teve que se adaptar à tua vida.  E tu viste que era possível e habituaste-te. O tempo para a família que outrora dizias não ter aumentou num instante. E tu viste que era possível e habituaste-te. Aquelas conversas já quase no tempo perdidas tiveram espaço para acontecer. E tu viste que era possível e habituaste-te. As relações superficiais que mantinhas ganharam um novo vigor. E tu viste que era possível e habituaste-te. A vida começou, para teu espanto, a ficar melhor. Mais parecida com aquela que querias. Nesse instante uma pergunta começou a incomodar-te: “Será que tudo isto sempre foi possível e eu nunca me tentei habituar?” 

O que queres?

Talvez tenha tocado numa ferida à muito tempo aberta, se o fiz, apesar da intenção ser a melhor, peço-te desculpa. Eu sei que até ao dia de hoje ninguém te ofereceu o “Guia sobre como viver a vida sem fazer asneira”. Ninguém te ensinou tudo o que aprendeu com cada erro que cometeu na sua vida. Bem sei que estás a fazer o melhor que sabes, com o que tens, para viver a melhor vida possível. Sei que a cada dia que passa, com todas as batalhas que tens que travar para assegurar a tua sobrevivência e dos que te são mais queridos, se torna difícil reservar um par de minutos para pensares em ti, em como te sentes com tudo o que se passa contigo ou, até, para te permitires imaginar, qual sonho, como seria viver a tua vida ideal. 

Não te censures nem culpes pelo que achas que podias ter feito melhor até hoje. Não te afundes num poço de auto-comiseração pela vida que tens neste momento. Parafraseando e adaptando o adágio de Henry Ford, quer acredites que a tua vida poderia ser melhor ou pior tens absoluta razão. Censura-te sim se, depois deste despertar forçado e violento, continuares a viver a mesma vida que antes! 

Um momento único!

Acredita quando te digo que este é O momento. O momento que pode definir o resto da tua vida.  É o momento de olhares para aquelas que dizias serem as tuas motivações e ambições, para as tuas interações e relações, para a tua vida e para aquela pessoa que dizias querer ser. Vai além do óbvio e procura o que te tem escapado. Revê a tua vida e tudo o que sacrificaste até aqui. 

Percebe se o que tens vindo a perder de melhor foi perdido porque o tenhas descartado ou porque nunca o tenhas ambicionado. Procura, em ti, as lições que te fazem sentir diferente, que te dão a força para mover montanhas e te fazem acreditar que a tua vida ideal está, como sempre esteve, ao teu alcance. Aquelas lições que se materializam nos teus olhos e te descem pelo rosto.  Porque este é O momento!

O momento, como te diria a minha avó, de te habituares a uma nova vida. Uma vida em que acordas com ânimo e envolto em risos. Em que te dedicas, com conta, peso e medida, a um trabalho recheado de sentido. Em que cada relação enriquece o significado que dás à tua vida. Em que aproveitas o melhor de cada dia da vida! 

Pensa bem. Dá uma hipótese de tornares real a vida com que sonhas. De redesenhares e te habituares a uma nova vida. De dares um novo vigor à experiência única que a vida é! 

Aproveita o melhor deste momento!

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